DESFUMANDO


Já não sou como antigamente!

 

Estava sossegada tricotando um gorro de lã enquanto pedalava  no  aparelho elíptico de ginástica, quando fui surpreendida pela presença daquela que deveria ser a última formiga moicana  que sobrou em casa (depois da matança no episódio passado).  Tentei alcançá-la mas enrosquei no fio de lã do tricô e cai um tombaço do aparelho elíptico.

Já não sou mais a mesma de antigamente . Fazer tricô enquanto me exercito em cima do aparelho de ginástica, não é nada perto de quando era criança. Costumava arrastar minhas panelinhas e bonecas para cima do telhado da garagem para brincar de casinha (detalhe: usava o galho de uma goiabeira para saltar no telhado).  Jogava bolinha de gude com a molecada e aprontava choradeira quando perdia, os meninos ficavam com dó e devolviam minhas bolinhas de gude.  Me divertia com pipas, carrinhos de rolemã,  dando tiros com espingarda de pressão no sítio do meu vô, e  fazendo teatrinho reproduzindo os filmes que assistia na matinê, a vizinhança pagava o ingresso em paçoquinha, meu doce predileto. Fiz muitas vezes a Dalila, cheguei a cortar de verdade o cabelo do ator mirim,  o imcompreensivo  nunca mais falou comigo depois disso, não entendeu meu veio artístico. 

Quando era criança sonhava  tornar-me uma executiva de sucesso, queria  ‘pilotar’ meu carrão e fumar. Isso mesmo, eu achava lindo fumar! Hoje sou uma  aposentada, executiva  de serviços domésticos,  estou mais para mecânica de automóveis que piloto, pois vivo fazendo gambiarra no meu carro velho para ele andar, e estou certa que comecei a fumar por trauma com formigas.  Perdi minha chupeta quando fui fazer xixi em cima de um formigueiro, as danadas me atacaram, saí correndo e nunca mais achei a chupeta. Mamãe disse que as formigas a levaram para dentro do formigueiro. Acho que  esse trauma me levou a fumar  para substituir a perda. 

Enquanto estava no chão enroscada nos fios de lã,  a última moicana corria ao meu redor parecendo zombar das minhas lembranças de um tempo em que o Ronnie Von jogava a franjinha de lado.

 

 



Escrito por Vi às 19h53
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