1 ano e 7 meses - AMIZADES E MULETAS

Nós mulheres vamos ficando velhas e sozinhas. Homens sem ‘coleira’ são coisa rara na praça, quando aparece algum dá vontade de matar, pois não se cuidam e geralmente estão mais precisados de enfermeira do que de companheira. Boa parte de nós, que não tem vocação para enfermeira, vamos seguindo a vida sozinhas mesmo. Nossas companhias são as amigas. Ahhh nossas maravilhosas amigas! Sem elas seria difícil tocar a vida para frente! Tenho muitas amigas, e uma delas, japonesa, me pediu para acompanhá-la em uma delicada cirurgia para enxerto ósseo na boca. Após a alta do hospital eu a trouxe para meu apartamento para recuperação, que deveria ocorrer no máximo em uma semana. Começou aí nossa saga, ela tinha que tomar caldos e sopinhas, mas ela gostava mesmo é de comida pesada, no terceiro dia de cirurgia já me ‘obrigou’ a fazer ovo frito, o que fiz sob protestos. Ela não deu trégua, e como sou uma péssima cozinheira , logo ela quis ir para o fogão fazer as comidas que ela gosta, e o fato foi que torceu o tronco com mal jeito e fraturou o quadril, no local de onde havia sido retirado o osso para enxerto na boca. Foi um desespero, tive que ir até uma casa médica locar uma cadeira de rodas para levá-la ao médico (ela é boa de garfo e pesadinha, 65 kg). Fomos ao médico debaixo de uma chuva danada, foi um sufoco empurrá-la na cadeira de rodas (temos a mesma estatura mas eu peso só 49 kg), em rampas escorregadias para consulta, raio-x, etc... Depois de confirmado o trincamento e com recomendações apenas de repouso para a recuperação, fomos até o apto dela pegar mais algumas roupas e os temperos caseiros prediletos dela, e ainda desorientadas com a cadeira de rodas, tentávamos dirigí-la entre gritos e berros: mais pra cá , ops... menos, menos, menos... é isso... devagar, devagar... empurra pra lá, pra láááá , ai, ai ai..., peralá , mais para esquerda, para direita...opa virou demais... ríamos feito duas loucas, e o pior que quando ríamos doía-lhe tudo em dobro ( a boca e o quadril), e eu perdia a força correndo o risco de deixar a cadeira desembestar ladeira abaixo...foi hilário mas perigoso... Ainda naquela noite fui empurrar um armário para livrar um pouco a porta do quarto para a cadeira de rodas passar, o que acabou por quebrar os dois pés do armário, parecia que tinha ocorrido um terremoto no quarto e em todo o apto com as coisas empilhadas para abrir espaço para a cadeira passar. Para arrematar furei o dedo indicador na m... da minha sombrinha quebrada, e por isso, quando finalmente fui picar legumes para fazer um cozidão para o jantar, a posição do dedo arrebitado para cima, dava a impressão que eu queria mandar tudo para ‘aquele’ lugar... Nessa hora minha vontade era de largar tudo e tomar uma cervejinha e ... bem.... lembrei daquela ‘muleta fumacenta’ (cigarros), mas foi só por um instante, pois esta lembrança me ajudou a ter uma brilhante idéia que pus em prática no dia seguinte : devolvi a cadeira de rodas e minha amiga agora está andando por todo meu apto de muletas, e assim pode também cozinhar sem correr risco de vida, deixando assim meu apto impregnado com cheiro de fritura, alho e cebola por tudo que é canto... Adoro essa minha amiga, e nossas diferenças e necessidades nos tornam ainda mais amigas. 
Escrito por Vi às 20h34
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|